Resolvi começar a contar histórias. Confesso, minha analista foi quem me sugeriu. De acordo com ela, penso, processo e especulo algumas situações do cotidiano; então, posso potencializar essa ‘criatividade’ para outras coisas que, ao invés de me estressarem, darão novo sentido à vida. Ela realmente tinha razão…

Busquei orientação! Dr. Google, my best friend, me indicou o caminho: Estação das Letras, no Flamengo, Rio de Janeiro. O passo seguinte foi me inscrever em um curso introdutório de contos. Eis que ingressei, de fato, na Literatura.

É claro que fiquei um tanto perdida ao escrever o primeiro conto. Jornalista acostumada a retratar a realidade – ou pelo menos ser fiel ao máximo a ela – tive dificuldades de extrair alguma ficção de dentro de mim. Bom, encarei o desafio e escrevi o “Pote de ouro”. Gostei da experiência e, desde então, tem sido uma delícia criar histórias, dar vida a personagens e, claro, interagir com eles.

Tudo tem sido uma grande descoberta e aprendizado. No meio deste caminho, tive o privilégio de conhecer pessoas incríveis que fizeram a oficina comigo (terminou nesta semana). Não poderia deixar de agradecer ao Elias Fajardo, jornalista, escritor, roteirista e artista visual, que compartilhou conosco sua larga experiência e, com muito humor e paixão, nos ensinou a técnica de escrever contos.

Laylla, minha professora de inglês, durante nossas aulas se empolgou com meu entusiasmo ao lhe contar algumas destas histórias e me sugeriu a criação de um blog. Num primeiro momento, confesso, fiquei com preguiça de assumir o compromisso com atualizações e tal; afinal, já tenho um bocado de trabalho no dia a dia. Entretanto, meus personagens e o prazer pela escrita me estimularam a seguir adiante, encarar o desafio.

Vamos começar esse encontro com os primeiros sete contos que escrevi durante a oficina. Espero que se divirta com minhas histórias e faça parte delas. Contribuições serão muito bem-vindas nesse processo de criação de outros começos ou novos finais. Vamos nessa!

Com carinho,

Regina Rozin 😉

Nice & Fred

Publicado: 12/07/2013 em Contos

A madrugada avança quando o barulho na maçaneta quebra o silêncio da noite. Ouço passos que, inutilmente, tentam ser abafados. Meus ouvidos, precisos, logo detectam o culpado que, a estas alturas, deve estar com as orelhas baixas e o rabinho entre as pernas. Ele sabe. Esperei dia e noite e, mais uma vez, me sinto abandonada e solitária. O pior ainda é que, desta vez, o vira-lata nem se preocupou em, pelo menos, afagar minha cabeça como costuma fazer nestas noites em que volta de suas cachorradas. 

Decidi que, desta vez, não darei um pio. Ignorarei solenemente tamanha falta de consideração pelo amor que lhe dedico todos os dias desde o primeiro encontro. Agora é tarde, meu coração já não consegue trair esse sentimento e só me resta suportar, virar para o lado e dormir.

Antes que ele desperte já estou de pé e bem longe dali. Também tenho o direito à minha própria vingança. Quem sabe assim, ele fique mais presente e me respeite mais. Decidi sumir de casa, vagar pelas ruas sem rumo. Dias depois, voltei. Na verdade, só havia passado alguns pares de horas, suficientes para ter a casa só pra mim e cumprir o meu plano vingativo de me fazer ausente. – Será que ele sentiu minha falta? Ou, mais uma vez atrasado, caiu da cama e saiu atropelando tudo? Bom, pelo menos se deu ao trabalho de deixar meu almoço pronto. 

Avança a noite e, para minha surpresa, ele chega cedo. Faço questão de não fazer festa ao recebê-lo e, claro, ele percebe o meu desprezo. – Oi Nice! Por onde você andou? Rodei a cidade toda à sua procura. Meu chefe está uma fera porque faltei a uma reunião importante e, claro, ele não gostou da minha justificativa. Ufa, bom, o importante é que você está a salvo.

O olhar assustado de Fred pela possibilidade de me perder arrancou de mim uma sensação profunda de felicidade e vingança cumprida. Ele me abraçou forte, rodopiou comigo no colo, me encheu de beijos e voltei a ser a sua garota. Em resumo, eu realmente tinha que me posicionar, afinal, nós cachorros, não queremos só osso; quer dizer, ração. Tempos modernos!  

Era uma vez…

Publicado: 03/07/2013 em Contos

Ela tem a pele branca como a neve e os cabelos tão negros que realçam ainda mais sua alvura. Seus lábios são de um vermelho-vivo que contrastam com o coração gelado; adormecido pelo veneno da maçã. Branca de Neve, recolhida em um caixão de cristal, é venerada por sete homenzinhos que aprenderam a amá-la e que agora rezam por um milagre.

Mestre, o mais sábio dos sete anões, tagarela sobre as razões da partida de Branca de Neve. “Uma princesa tão doce e generosa vai tornar o reino dos céus ainda mais especial”, diz. Dengoso se desmancha em lágrimas, deixando Zangado com raiva por não conseguir segurar uma lágrima que escorre e carimba a camisa. Os outros anões se amontoam em cima da princesa para admirar a magia de uma beleza mórbida.

Dias se passam até que, como por um milagre, um príncipe vindo de terras distantes para e pede informações aos anões. Ele se perdeu de seus soldados quando o pelotão que comandava foi surpreendido por um ataque inimigo. Ao saltar do cavalo, o príncipe se depara com o caixão de cristal e, intrigado, pede explicações. Seus olhos não conseguem desviar de Branca de Neve. De repente, num impulso, o príncipe a arranca de lá e lhe dá um beijo apaixonado.

***

Os olhos de Dom brilham e, entre palmas e vibrações, ele pula em um abraço forte beijando ternamente a mãe. “Você é a minha Branca de Neve, mamãe. Te amo”. Sibelly abraça longamente o filho, acaricia sua cabeça e o cobre com o edredom para que durma quentinho e seguro. “Agora a Branca de Neve vai dar um beijinho para que o meu príncipe durma com os anjinhos”, cantarola Sibelly.

Ao sair do quarto com um risinho de satisfação, Sibelly leva um susto ao ver Luiz, seu marido, a observando atentamente como quem acaba de dar um flagrante. Ele sabe, esta é a estratégia da mãe para ganhar beijos e o carinho do filho que, agora, mais crescidinho, começa a rejeitar o colo e os dengos. Luiz sorri, a pega pela mão e num beijo de contos de fadas a conduz para o quarto do casal. “Vamos dormir, minha Cinderela”.  

À Sibelly Nobre que, com sua doçura, alegra o Céu.

Flashes da Urca

Publicado: 26/06/2013 em Contos

Da mureta da Urca, um charmoso bairro histórico do Rio de Janeiro, Bento contempla o seu enquadramento preferido da cidade. À margem da Baía de Guanabara e vista para o Cristo Redentor, dali os fins de tarde de domingo têm tons alaranjados inesquecíveis. Bento se afasta das horas; medita e mergulha na paisagem. O vento que bate no rosto traz um frescor que lhe arranca um profundo suspiro.

Mas a paz de Bento é bruscamente interrompida pela desajeitada Júlia e sua vira-lata, Fiona. A cachorra, desembestada, corre em disparada e arremessa Júlia pra cima de Bento que, por pouco, não desce mureta abaixo. Apesar do desastre, os dois, colados pelo impacto, ficam  com tamanho encantamento. Fiona late histericamente e desfaz o efeito ‘câmera-lenta’ que envolve os humanos.

– Poxa, me perdoe. Estava passeando com a Fiona quando ela ficou louca ao ver uma barata. Tudo foi tão rápido e, de repente, eu estava em cima de você!…

Júlia cora, desvia o olhar de Bento que continua ofuscado pelo encanto da moça.

– Oh, sem problemas. Eu entendo. Só levei um grande susto porque estava desconectado daqui e você quase me mata. Mas foi bom, quer dizer… Aceito seu pedido de desculpas desde que fique mais um pouco. Vamos bater um papo, quero te conhecer; a Fiona também.

Enrubescido, Bento ri do próprio convite e da piada sobre Fiona. Imagina conhecer uma cachorra, justo ele que nunca foi amante de bichos de estimação.

Ainda corada, Júlia assente com a cabeça, ajeita a roupa e se senta na mureta ao lado de Bento. O crepúsculo testemunha o nascimento de uma história. As horas passam e o papo flui com um encantamento mútuo. Fiona tira uma soneca ao lado do casal que conversa animadamente. Bento, não suportando mais o desejo, puxa a mão de Júlia para si. Apesar de nervosa, ela também não se contém, cedendo aos encantos e beijos do jovem rapaz. Entretanto, Júlia demora muito além do tempo de sua costumeira voltinha com Fiona e precisa voltar para casa. Se despede de Bento, trocam telefones e promessas de novos encontros; cada um segue seu rumo. Bento, logo chega em casa.

A semana se arrasta e Bento não tem notícias de Júlia. O telefone só cai na caixa postal, não há sinal da moça e ele fica enlouquecido, com cóleras de paixão. Sem sucesso nas tentativas durante a semana, Bento vai à mureta no domingo na esperança de encontrá-la. Chegando ao ponto de encontro, observa que há uma silhueta de um cachorro, é Fiona, mas nada de Júlia. Espera horas, nada dela. Resolve levar Fiona para casa, preocupado, pois a cadela está aparentemente abatida, faminta e doente. Mais uma semana e nada de Júlia. Mais um domingo na mureta, sem notícias. Os dias, semanas, meses e anos passam sem um único contato. Bento sente que a perdeu.

Lúcia, uma colega do colegial, reaparece na vida de Bento. Em um ano namoram e se casam. O nascimento do segundo filho é também marcado pela morte de Fiona, que esteve com Bento nos últimos oito anos. Embora tenha uma vida feliz, Bento passou a vida pensando em Júlia, no que deixou de viver com ela. Despede-se de Lúcia que, aos 62 anos, morre de uma doença degenerativa. O viúvo segue em frente, dedica-se ao trabalho, aos filhos e netos. Quase todos os domingos, durante esse tempo, Bento vai à mureta cheio de esperanças.

– Será que aquela garota linda, divertida e encantadora foi uma criação da minha cabeça? Como aqueles olhos cor de mel poderiam ter me enganado? Eu acreditei ser especial! Mas, e Fiona? Como ela apareceu? Muitas perguntas trovejavam dentro de Bento e ele desejava tanto ter respostas.

Aos 65 anos, na mureta da Urca, Bento fecha os olhos e relembra aquele domingo de céu alaranjado em que conheceu Júlia. Chora de saudade, aperto no coração e nó na garganta. Quando se prepara para ir embora, repara uma senhora que chega com uma menina jovem, de uns 20 anos, incrivelmente a cara de Júlia. Bento não se contém e pergunta:

– Júlia? – Os olhos estão arregalados e cheios d’água.

– Não, eu sou a Clara. Mas esta é a Júlia, minha avó. Você o conhece, vovó?

Aos 63 anos, a senhora de olhos cor de mel olha para aquele senhor e franze a testa como quem busca uma recordação em um tempo perdido no espaço. Mas, ela não tem certeza. As lembranças são vagas e picadas, apenas alguns flashes. Bento sente que é ela e, mais uma vez, pede para conversarem.

Horas depois, Bento consegue, finalmente, suas respostas. A neta explica que há 40 anos, quando a avó tinha 23, ela sofreu um grave acidente ao voltar da caminhada com sua cachorra e por pouco não morreu. Após dois meses em coma, Júlia voltou à vida. Ela perdeu a memória dali para trás e precisou construir uma nova história. Casou-se, teve uma filha, que lhe deu Clara. Viúva há um ano, sem mais nem menos pediu à neta que a levasse à mureta aos domingos. Sem entender direito, Clara atendeu suas vontades. Só não imaginava que o coração da avó guardara um amor que o dano cerebral não conseguiu apagar. Desta vez, Bento fez questão de deixar Júlia em casa.

 

O ateliê de Alice

Publicado: 16/06/2013 em Contos

Visões, alucinações, cores e movimentos. Nada passa batido pelo astuto inconsciente de Alice. Sua arte, vinda da inquietude da alma, reproduz a vida e a morte de desconhecidos. Pessoas que passam a fazer parte de suas intermináveis madrugadas que acabam sempre em manhãs sonolentas e dias arrastados.

Foi em uma destas madrugadas em claro que Alice deu vida à sua primeira arte: o cruel assassinato de Ana Muniz, amante do excêntrico Luiz Felizberto, um empresário do setor hoteleiro do Rio de Janeiro.  A atriz pornô foi morta, amarrada à própria cama e algemada pelas pernas e braços. Nua, sua fisionomia apavorada dá o tom de terror à tela pintada. Até parece ter nascido pelas mãos do próprio assassino. Ao redor, policiais e suas fisionomias perplexas buscam vestígios para iniciar a investigação.

Outra tela retrata o caos de uma cidade devastada por um ciclone. Casas reviradas, destroços pelas ruas, pessoas arrancadas de suas famílias. Uma trilha de sofrimento com um céu acinzentado de arrepiar a alma. O cheiro da fumaça vinda da fuligem e da carne queimada ao acaso entope os pulmões. Não dá pra respirar. Alguns instantes e é possível sentir espinha acima o clamor, o pedido desesperado por ajuda e as despedidas silenciadas pelo horror da tragédia. Pilhas de corpos. O grande vento silenciou tudo em volta.

São muitas as telas espalhadas pelo ateliê de Alice. Estão prontas para serem servidas a um público seleto, os abutres, apreciadores de uma arte que revela a miséria e a tragédia humana. A exposição é um sucesso pelo tom de realismo que a artista projeta a cada peça. 

As telas de Alice, resultado de uma inspiração vinda de noites em claro, são despertadores que clamam por revelações. Uma força que a tira da cama e a joga entre telas vazias, cores e pincéis. Ela pinta compulsivamente, como se atendesse a um chamado e, ali mesmo, aos pés de sua obra, desmaia em sono profundo quando um novo dia começa a despertá-la. Uma soneca apenas, o suficiente para esvaziar a mente e fazê-la estremecer com o que vê.    

 Alice seria apenas mais uma artista se não fosse por uma razão: sua insônia, que lhe rouba as noites e o sossego, reproduz notícias de grande repercussão. As cenas seriam facilmente retratadas por uma artista de talento como ela. Entretanto, sua arte premonitória, ao ganhar fama e os corredores das redações, entra na mira da polícia. Alice seria apenas alguém que perde o sono na madrugada e pinta para fazê-lo voltar? Era isso o que ela imaginava até um dia, inexplicavelmente, despertar de uma soneca com as mãos ensanguentadas.

O amor de Luisa

Publicado: 16/06/2013 em Contos

Quando o casamento de Luisa acabou, há quase dez anos, descobriu que era forte o suficiente para superar a traição, a humilhação e uma mágoa profunda. Mas fraquejou ao lidar com o fracasso no amor, afinal, acreditava ser para a vida toda. Um ano depois da separação, sentia que era o momento de tentar de novo, hora de redescobrir o sentimento que a apunhalou pelas costas.

Nessa nova etapa, Luisa quebra a cara algumas vezes e chega até a se relacionar com Marcos, um homem interessante, mas que não a atrai. Apesar disso, tenta se apaixonar, pois acredita ser possível treinar o coração para amar novamente. Não dá certo e, mais uma vez, se magoa e machuca outra pessoa. O que não esperava é que esse cara lhe daria o maior de todos os conselhos: “Não existe ninguém perfeito e, se continuar acreditando nisso, passará o resto da vida procurando alguém que não existe”.

Depois do alerta, recebeu outro conselho de Chico, um colega de trabalho. Devia abandonar os livros de auto-ajuda no amor, levantar a cabeça e acreditar no próprio potencial de ser feliz. Dias depois, o colega enviou uma agenda telefônica e um bilhete que dizia: “Fiquei revoltado. Como pode uma garota como você ficar de baixo-astral e (argh!) estar lendo livros de auto-ajuda? Você não deveria ler sobre planetas distantes (Marte e Vênus), sobre polvos, cobras e lagartos. Nos momentos em que precisasse de um ombro, deveria apenas pegar seu caderninho de telefones e escolher o nome da vez”.

Além do caderninho que Chico, como patrocinador, fez questão de preencher todas as letras com o próprio nome, ainda lhe deu um livro sobre as paixões com uma dedicatória especial: “A paixão é um sentimento que tanto nos eleva como nos derruba. Curtir uma grande paixão é sempre muito bom, mas ‘descurti-la’, quando tudo termina, é melhor. Apesar de tudo, o mundo ainda merece continuar vendo o sorriso no seu rosto”. As lágrimas presas há tempos se libertaram.

Luisa sentiu um estalo. Chico estava certo. Era preciso coragem para seguir em frente. E foi revirando suas lembranças, depositadas em uma caixinha de recordações, que Luisa encontrou cartas, cartões, memórias. Veio à cabeça a saudosa lembrança de amigos, ex-namorados, da família… Um turbilhão de momentos inesquecíveis que adormeceram no tempo. É o caso do cartão postal enviado de Paris pela amiga Clarisse que, além de mostrar a luz da cidade e do amor que estava vivendo, pedia para a amiga se cuidar. “De vez em quando perca o juízo, mas nunca deixe de ter amor próprio”.

A madrugada avança e Luisa mergulha na caixinha.  Lembranças que a inspiram e ajudam a entender mais sobre o amor. Ri de si mesma, da tolice de ter esquecido que não há amor maior do que se olhar no espelho. Fez isso longamente, até se perder entre risos, choro e recordações. Finalmente, Luisa reencontra o amor. E, desde então, procura cultivá-lo todos os dias à frente do espelho. O amor próprio foi o maior presente que podia se dar. Adormeceu criança, acordou nova mulher.

Nos meses seguintes, Luisa saiu da toca inúmeras vezes. Até que certa noite convidou-se para jantar em um bom restaurante italiano. Deliciou-se com massa e uma generosa taça de vinho. A bebida ajudou a relaxar, rir de si mesma, fazer amizade com o garçom. Distraída em pensamentos, devaneios e na satisfação do momento, Luisa é bruscamente despertada pelo garçom ao lhe entregar um bilhete: “vejo que está em boa companhia, posso acompanhá-la no café?”.

Contrações e recordações

Publicado: 16/06/2013 em Contos

Se eu imaginasse que tudo se resumiria a tanta dor teria pensado bem antes de abrir as pernas. Vinho, ousadia, prazer, sexo, humor, piadinhas insolentes e provocações sensuais.  A noite foi boa, sem sombra de dúvida, mas o dia seguinte foi trêmulo e embriagado pelos flashes de memórias não tão memoráveis assim, certamente devido às três ou quatro, talvez cinco, garrafas de vinho barato nos quais tropecei ao tentar chegar ao banheiro para mais uma sessão de vômito. Ah, o vaso sanitário nunca antes foi tão convidativo e ombro amigo.

A vaga lembrança de uma boa trepada, noite ardente, sem muito papo, amor ou qualquer insinuação romântica, me fez lembrar que talvez tivesse fraturado a coluna ou o braço, sei lá talvez uma perna. Enfim, de repente os ferimentos tenham atingido apenas minha moral e os meus ‘ditos e repetidos’ bons costumes. Na verdade, mal conseguia interpretar o que houve além da própria necessidade de algo urgente, uma xícara de café.

Hummm, um café forte e reconfortante é sempre uma boa pedida. Cheiro inebriante que toma conta da casa e do meu corpo exausto, atordoado e humilhado. Não, não, não, não… Por mais que eu tente evitar, de repente me vêem à cabeça mais cenas da noite passada irrompendo minha serenidade latente. Lembro que acordei sem roupas e que as vi espalhadas pela casa. Uma trilha que começa pela porta de entrada da sala, segue pela cozinha e, a última peça, pelas minhas contas, uma calcinha vermelha rendada, humm, bom, sumiu.

Os dias se passaram e não vi mais aquele homem que me revirou a vida, talvez me virou pelo avesso, devassou meu corpo e me deixou querendo mais, ardente. Também não achei a peça que faltava no jogo, na trilha de roupas, a minha micro-calcinha que deve ter se escondido de tão minúscula e vergonhosa que era. Será que virou troféu e está exposto em alguma galeria do macho exibido e esnobe? Alguém deve estar contando vantagem por aí.

Os dias passaram, sendo uns mais leves outros mais pesados. Mas, de fato, nada se compara ao peso da minha barriga que, de tão grande, me fez parar na maternidade. E lá estava eu, entre contrações e recordações. Prazer (pelas lembranças da noite em que me vi outra mulher) e uma dor de rasgar a alma, desejar dormir profundamente e acordar inteira outra vez.

O momento em que a Mel veio à luz, em um choro sofrido e saudoso do meu calor, me fez lembrar o sorriso safadinho do pai dela ao entrar na sala de parto. Todo de branco, nervoso, mas sem disfarçar um riso sacana na cara, a própria imagem da vitória. Notando sua aparente satisfação, percebi um pontinho vermelho que saltava do jaleco. Na altura do campeonato percebi para quem foi o troféu daquela partida.

Mel nasceu saudável, perfeita, com mais de três quilos e cheia de fome; um milagre. Mal sabe ela que já nem tínhamos esperança de receber essa benção. Mais de dez anos de casamento e a ausência de filhos fez de nós bons amigos, quase irmãos. A libido em baixa fez fogo cessar.

Mas aquela calcinha vermelha, símbolo da experiência apimentada que me deu uma filha, agora é o nosso troféu. Meu jeito certinho e puritano de levar a vida e o casamento, quem diria, foi massacrado por uma minúscula lingerie que me apontou o caminho da felicidade e, por que não dizer, da promiscuidade e descobertas. Fico arrepiada só de pensar no que havia deixado de conhecer até agora.

A Mel vai bem. A calcinha também. Aliás, ela é o convite quando queremos abrir as portas do desejo para lugares além-fronteiras, onde podemos viver histórias que são apenas nossas, frutos da imaginação. O lugar onde eu posso ser eu ou qualquer outra. Depende do convite, e se ele for minúsculo, vermelho e sem qualquer pudor, melhor ainda.